descrição
10.11.10
9.11.10
filo-café: sacroprofano (contributos)


...

********************

...
...

**********************

...

*******************

**************

********

****************************


*************************************




"Vivo sen viver en min!"

Uma oração sofridamente fodida…
Foda-se, está tudo incompleto. Está tudo incompleto. Foda-se. A vida está irremediavelmente incompleta. Dizem que a vida se completa na morte. Ora foda-se, a vida é o contrário da morte. E a morte é o contrário da vida. E o contrário do contrário é a origem da vida. Não há dicotomia mais absurda. Para além de tudo, Deus fez da morte a sua vingança. Deixemos a ergonomia de Deus em paz. Deixemos a insolvência da eternidade em paz. Deixemos a economia das almas em paz. Deixemos o desespero da paz em paz. Deixemos todas as desilusões em paz. Deixemos a santíssima trindade em paz. Deixemos a guerra em paz. Deixemos a guerra em paz. Deixemos a guerra em paz. Deixemos em paz a brutalidade inusual de um coito severo. Deixemos em paz a virtude de um orgasmo múltiplo e de uma ejaculação precoce. Deixemos em paz as raras ejaculações tardias e os orgasmos funcionais. Deixemos definitivamente em paz a fertilização em vítreo. Deus, dizem os profetas, quis a vontade dominada pela crença. Deus, dizem os teólogos encartados, quis os homens dominados e santos e responsáveis e obedientes e respeitadores e simples e inteligentemente obsessivos pelos gestos simbólicos da abdicação. Deus quer existir na dissidência humana da vacuidade. Deus é um momento eterno. Deus deixou de ser verdadeiro a partir do momento em que me fez mortal. Deus teve o descaramento de se travestir de serpente. Foda-se, Deus teve de se disfarçar de animal rastejante para nos condenar à condição humana. Deus não desiste da paz em favor da guerra nem da guerra a favor da paz. Deus não desiste da necessidade urgente de ser uma desilusão cada vez mais urgente e insurgente e insolvente e incipiente. Deus fodeu-nos definitivamente a vida eterna afirmando com língua de fogo que era isso que nos oferecia em troca de lhe sermos fiéis. E se há coisa que seja verdadeiramente humana é que os homens são féis a Deus. Muito mais fiéis que Deus o é em relação aos homens e à sua nua humanidade. O Deus de todas as coisas é cada vez mais um Deus de coisa nenhuma.
Arboreto
Vem vindo devagar o rolo negro
o odor acre em volutas que o nariz persegue
salpicos de cinza depositam-se no terraço
entram fagulhas pelo quarto dentro
seguindo uma nuvem chamuscada de borboletas.
Os carvoeiros agacham-se atrás das choças
aterrados.
Os jardineiros preparam baldes
os lenhadores atentam no fio dos machados.
A colcha branca da cama
manchada com um crime alheio
afinal nosso
é de todos o crime
com mata em chamas ou rios pútridos
todos somos criminosos:
carvoeiros jardineiros rachadores e
lenhadores
e paisanos de outros orientes.
Erguem-se gritos sob a ameaça
o fogo tão próximo das casas
uivam cães
os lobos já não existem
e as lagartixas correndo loucamente
em busca de um buraco no chão
ocupado já por escaravelhos
uma cobra aflita
e outros animais que buscam salvação
mas voltam para trás
acabando
predador e presa
por partilhar a mesma lura subterrânea
enquanto no mundo dos homens
lavrar mais escândalo ainda do que flamas.
A mãe Gaia agarra-nos agora pelos pés
sem raivas sem espírito de vingança
não é sequer um julgamento
apenas o resultado da nossa ganância.
Piores somos que animais
bestas sem raciocínio nem piedade
merecíamos tribunal e essa imagem de Salomão
a espada na mão direita
a ameaçar a criança suspensa
da mão esquerda.
Mas não temos aqui nenhum tribunal
nem juízes cruéis
justos ou santos.
Gaia é um superorganismo
Terra-Mater
Magnificente, ó Sublime e Sereníssima
Mãe de toda a gente
rogai por nós!
Gaia ignora sentimentos
não conhece a raiva o ódio a arrogância
não sabe o que é a vingança.
O eterno riso na boca
dá-nos
sem cobrar o troco do mal que lhe infligimos
lenha para nos queimarmos.
Os carvoeiros agacham-se atrás das choças
aterrados.
Os jardineiros preparam baldes de água
para apagar o incêndio
os lenhadores atentam no fio dos machados.
Não há salvação para o povo da floresta.
Sem árvores não se forma oxigénio
resta-nos morrer asfixiados.
Maria Estela Guedes.
Extraído do livro Arboreto (inédito)
7.11.10
sacroprofano
Filo-Café: Sacroprofano
6 Novembro 2010, 21h
Adega Faustino
Travessa Cândido Reis, s/n
Chaves
A participação no filo-café pode ser feita de 2 maneiras: 1-presencial (incluindo obras) 2-virtual através da publicação no blogue: http://filo-cafes.blogspot.com
Participantes:
andré da graça (pintura, boticas), rui maia (fotografia, porto), fernando ribeiro (fotografia, chaves), joão madureira (fotografia, chaves), elisabete pires monteiro (pintura, boticas), marilia lopes (poesia, vila nova), virgílio liquito (poesia, porto), iolanda aldrei (poesia, compostela), alexandre teixeira mendes (pensamento, porto), rui souto (poesia, porto), carlos vinagre (pequena-comunicação, espinho), carlos silva (fotografia, porto), ana luisa monteiro (fotografia, boticas), dinis ponteira (fotografia, chaves), afl nordeste (fotografia, chaves), maria carvalho (poesia, senhora da hora), antónio sousa e silva (poesia, chaves), ana maria borges (fotografia, chaves), mônica delicato (pintura/artesanato, gaia), bruno miguel resende (performance, vila real), fátima vale (performance, vila real), spabilados - teatro hedonista ("missa negra", vila irreal), elisabete afonso monteiro (pintura, chaves), ermelinda rodrigues (poesia, chaves), alberto augusto miranda (pensamento, porto), antónio roque (poesia, chaves), raul pinto (poesia, porto), henrique dória (pensamento, porto), jorge trindade (música, vila real).