descrição

"Um filo-café é um triciclo. Movimenta-se pelos próprios. Não tem petróleo. A sua combustão é activada pelo desejo. Não se paga, não se paga. Apaga-se. E vem outro. Cabeças sem trono. Um filo-café lembra-se. Desaparece sem dor."

21.9.12

filo-café internidade: contributos (1)



Internidade


Já não vais descalço pelas margens do rio, já não roubas fruta nos quintais, nem jogas à macaca traçada no chão. Nem sequer na tua memória há alguém interessado em convidar-te para capturar girinos. Nem um fio de cabelo se mexe. Está tudo quieto e misterioso. Talvez esperando uma fraqueza para te assaltarem, para serem elas as presentes e não tu presente nelas. As recordações ficam estátuas e o único movimento que te ocorre é o de um baloiço que acabou de parar. Às vezes revolves frases familiares onde te procuras em ti, visto de fora. O tempo individual é uma internidade relativa, quando te envolve com a emoção que te foi proporcionada nos espaços.

Na órbita dos pensares um território de ninguém, talvez um limbo ou uma estrada. Quando acontece meditares pensas que é por ela que vais, sem encruzilhadas. Deixas que uma parte do interno solte as algemas com que o corpo o prendeu e, então, deslizas. Agora, o curso do olhar vai também fotografando a espuma, a ausência de margens. Na primeira comunhão sabias voltar-te para o altar e unir as mãos como nas estampas do livrinho branco, com um terço debruçado, olhar para a Virgem e pensar no céu como recompensa e o no inferno como castigo. Hoje e aqui parecem dissipar-se o medo e as ameaças. Já não chega com a mesma violência esse oceano de chamas que aterrorizava as noites pesadas. O inferno tornou-se na obrigação de pertencer a um externo sofrível, o céu na etiqueta da paz e da justiça moribundas. Ficaram na guerra, nos olhares dos ditadores e dos fascistas esses invernos de fora que te queimaram por dentro. Ninguém pode apagar os rasgos que se abriram no interior, as cicatrizes mais profundas. Através da viagem essa internidade come experiências. Se não fora a fé, aguentarias menos. Não pode ser apagado o que te formatou. Continuas a viagem e dizes que não há nada para além do vazio. Vês um enxame de estrelas que te fere os olhos, mas isso é de os fechares com muita força. Ouves a melodia cósmica do silêncio e perguntas por Deus. Ele não responde, mas isso é de teres problemas com a audição. O ruído assusta-te. Por isso afastas-te, cada vez mais. Há um campo aberto onde esperas deitar-te a contemplar as nuvens. Elas, compenetradas a formar uma mensagem para que leias, tornam-se carregadas. Foges da tempestade, mas isso é porque te esqueceste do guarda-chuva ao lado da porta que dava para o Sol. Voltando os olhos para o alto, cegas. Está tudo escuro e, perdido o tempo que acendia velas, soltas uma lágrima. Não sabes se cai de ti ou se é chuva a romper pelos olhos que davam acesso ao infinito. Não há pontes e resolves construir um círculo. Talvez te inscrevas nele ou sejas a própria inscrição do amor. Pensas que o amor não é nenhuma sucessão de Fibonacci e formas um puzzle com os pedaços que de ti se soltam, como lascas, como cascas. Sobre ti muitas camadas, em sobreposição, descamam-se, lentamente. Sentes-te nu e corres, como louco em fuga do manicómio. Depois serenas, mas não porque te injectem calmantes. A química tem um poder que não cabe em ti. Falas contigo, preenches o monólogo com a neve da lâmpada, mas o que acontece é que falas com uma quantidade de gente interna e externa. Perguntas por ti, nessa névoa onde te aglomeraste ao vento, mas ninguém sabe dizer-te. Sentes ser uma possibilidade, uma versão, um traço, um acorde. O resto é um aglomerado de círculos com membranas. A personagem que se matriculou na composição do abismo procedeu à compilação dos quadros da tua existência. Questionou a largura, a profundidade e, sobre o tempo real, a verdade e o artifício. A angústia conduz-te novamente à estrada. A noite finca-se nos passos de dentro. Habitam perguntas, mais do que respostas naquilo que ainda podes, naquilo que ainda dizes. Porém não sabes, nem o satélite no alto. Há demoras e todo um negrume que te engole vivo. Na interrupção do negro, um ou dois segundos de luz. E tão incerta será se não houver quem a sinta, quem a observe. Desprendes-te da estrada, da cidade, do país, do continente, do planeta, da galáxia e continuas preso ao pensamento – esse gracioso décor até pelo próprio desconhecido. Saindo, é sempre em ti que estás. Estando, é sempre com o sair que sonhas.

Marília Miranda Lopes

12.9.12

filo-café: internidade

6 de outubro de 2012
Lugar do Capitão
Rua do Gonçalinho, 84
Viseu

13.6.12

filo-café: electricidade (contributos)

foto: carlos silva

***

campanário luminário de pesares


Donde surge a urze e os barrocos de granito se esboroam,
Johann Sebastian Bach e Frida Kahlo exsudam um tema
 catártico de feridas e calos arcaicos na frontaria da capela

; por fora está “toda iluminada” e Edison (que traz sempre
um cristal quartzo no bolso) preferia lâmpadas económicas
ao néon azul em redor da rosácea; porém, não se despeja
no alto-falante por compaixão.

Deixo entrar o vestido, mas descoso os sapatos vermelhos
à boqueira.

Adentro está escuro
: nem candelabros poeirentos, nem velas de plástico frenético.

Farejo a pele de tronco talhado.

Acende-se um espelho no altar vazio

; um es-
pelho 
de ca-
marim,
da en-
verga-
dura de um comum (i)mortal, predestinado
à notoriedade do suplício – vão na redenção 
dos se-
te bili-
ões de 
(ir)re-
refle-
tidos
peca-
dores 
; pois,
o que
evolu-
ímos
nós
além
do plágio?

(Dadores de dores: eis o contágio.)





O tempo que foge,
(que mais não é do que o de
ambular p’lo espaço) e a gravidade
extrema lateral, que me confere às
janelas aquele semblante profundo e 
d  e  s  a  m-
parado (por um processo similar ao
 dos space shuttles) abandona-me
a ermida. Bebo d’a água benta. 
Faço o sinal do coração, sem
os joelhos em dobra,
e conecto o 
néo-cortex 
às correntes.


] interlúdio [


Introduzo cinco 
cêntimos na ranhura para a jukebox
submerjo na Mikvah batismal até à garganta
com ares de santa e “O Cravo Bem Temperado”
; espamodicamente, o espelho – agora giratório –
reflete-me as cabeças. Eletrões-livres esvoaçam
 contemporaneamente no paraíso da frequência
mais fiel ao meu Corpo, envolvido numa aura de 
magnéticas maçãs trincadas. O néon e a jukebox 
esgotam-se. Boyle dedica, pirotecnicamente, o 
“Novo Fado Alegre” a Maomé, Moisés e Mãe Maria.
Alguns sorumbáticos fundamentalistas não sucumbem 
ao vírus ecuménico desta obscura radiação; nem à fricção
do âmbar de Tales de Mileto. (Hélas!) “Palavras loiras como 
trigo” feitas de Luz, as que te digo, do cimo dos meus doze porquês
Ecoa o sino doze vezes, sem curto-circuito. Mergulho inteira e descalça
; auto-cobaia. Regresso, convicta, na Incerteza de Heisenberg; algures, sem
agenda gregoriana ou maia. Leve e voltaica – incinero
a placenta deste lado do uni-
Verso.



texto: suzana guimarens 

***


Com que então, Eletricidade

Declaração de interesses.
Primeiro, a minha formação é em línguas e literaturas modernas, ramo de germânicas; segundo, não venho veicular conteúdos que fazem parte de qualquer tese de licenciatura, mestrado ou doutoramento; terceiro, não tenho ações na REN ou na EDP ou na Martifer, muito menos na Galp, na Shell ou na BP e, finalmente, não recebi qualquer tipo de patrocínio pecuniário, cultural, literário, industrial, elétrico, eletrónico ou informático

Posto isto, vamos ao que interessa.
Presume-se que saibam que a eletricidade faz parte da natureza e que é uma das formas mais usadas de energia, que se consegue, por exemplo, a partir do carvão, do nuclear, do sol, do vento, das ondas do mar, da fricção de dínamos ou até mesmo da cera, tanto aquela que tem pavio e dá luz, como a outra que, sem pavio, não dá luz mas carrega as baterias da língua, boa ou má.
Presume-se também que saibam que raios e coriscos não precisaram da habilidade e da sapiência do Franklin e do seu papagaio para existirem, nem das capacidades e competências do Faraday e da sua gaiola, onde o papagaio do Franklin nunca entrou, e muito menos da crueldade de Edison para inventar a cadeira elétrica, a tal que sossega a consciência de muitos norte-americanos, e não só, ao limpar certas comunidades de criminosos indesejáveis.
Presume-se ainda que conheçam conceitos como corrente, - a contínua e a alterna -, eletrão, ignição, faísca, eletromagnetismo, condutividade, fluxo, tensão, fricção, fusível, voltagem, luz, calor, fogo e descarga. Para não falar do cobre, o tal que agora é roubado, de dia e de noite, para ser vendido na sucata mais próxima, à beira da estrada, ou na mais remota, no cu de Judas e posteriormente ser recuperada pelas forças da ordem, para gáudio do ministro da administração interna, estímulo dos analistas de dados e sossego de muitos munícipes.

Falemos então de eletricidade.
Da electricidade que fez mudar o verde para o vermelho e que vos obrigou a parar ali atrás, no cruzamento da 33 com a 20;
da eletricidade que carregou o vosso telemóvel, que dentro de pouco tempo vos vai dar sinal de que há uma mensagem urgente para lerdes;
da eletricidade que alimentou os holofotes e gambiarras deste palco, que foram umas vezes aplicadas e outras tantas subsituídas pelos rapazes do Teatro Popular de Espinho que tanta peça têm conseguido trazer à cena aqui em Espinho como noutras localidades do país;
da eletricidade que insiste em dar luz às lâmpadas da ode trinfal de Álvaro de Campos;
da eletricidade que coloca um bate estacas numa pool party da meia noite às 6 da manhã poum, poum, poum poum poum, a vibrar-vos as janelas e a cama onde dormis;
da eletricidade que fornece energia e luz a fábricas que produzem bombas de fragmentação patrocinadas por biliões de dólares de bancos de vários países, alguns até fazendo crer que estão em situação financeira pouco saudável para ver se recebem um bailout dos amiguinhos do costume;
da eletricidade cujos preços vão subir, avisou o Mexia. Raios o partam, o honorário dele, claro.

Estamos a falar de quê? Ah, de eletricidade. Pois continuemos.

Há 6 anos, a esmagadora maioria dos vogais com assento na Assembleia Municipal de Espinho esteve contra a redução da fatura da iluminação pública do município e, consequentemente, contra a poupança de energia e contra os objetivos estabelecidos pelo Protocolo de Quioto. Ai não sabiam? Não se lembram? Eu conto tudo. Tudo começou quando o eleito pelo bloco apresentou numa 2ª feira, dia 15 de maio de 2006, uma proposta no sentido de a Câmara reduzir a fatura da iluminação pública. E como seria isso possível, perguntarão. O proponente sugeria que a câmara pedisse à EDP para, de manhã, fazer o favor de desligar a dita iluminação pública mais cedo, e, à noitinha, fazer o favor de a ligar um pouco mais tarde. Tão simples como isto. E julgam que o assunto ficou por ali? Não, senhores. A coisa era mais complicada do que pensam. O super vereador da altura, - super porque estava em todas, tinha a fama de conhecer e dominar o que na altura os especialistas chamavam dossiês - pediu para informar que a Câmara já tinha, desde outubro de 2005, um grupo de estudo a avaliar os consumos de energia a nível interno, de modo a preparar um plano para melhorar o desempenho energético da autarquia. Ninguém na Assembleia sabia disto. Haviam de ter visto as caras dos senhores vogais. Os maxilares inferiores de alguns teriam caído se não estivessem devidamente apoiados numa mão aconchegante. Concluindo a sua intervenção, o super vereador disse qualquer coisa do estilo: “A renda que a EDP paga à Câmara chega para a câmara lhe pagar o consumo da iluminação pública. E mais: a Assembleia pode muito bem apresentar e votar unanimemente esta e outras recomendações do género que a Câmara não as vais seguir porque já está a fazer o que se recomenda.”
Os eleitos pelo partido da mãozinha fechada, corroboraram a ideia, apelidando a proposta de redundante. Os eleitos pela coligação alegaram o bom funcionamento dos sensores que regulavam o ligar e o desligar da iluminação pública e questões de segurança pública para abandonar a ideia de pedir à EDP que, de manhã, desligasse as luzes mais cedo e, à noitinha, as ligasse um pouco mais tarde. O mesmo pediram os eleitos pelo partido das setinhas. Isolado naquela oca imensidão, o eleito pelo bloco retirou este ponto que tanto uredo estava a provocar, mantendo, no entanto, o outro ponto da proposta, que recomendava à Câmara que lançasse medidas para se poder poupar energia e, consequentemente, o dinheiro tão necessário para tanto projeto de encher o olho.
Finalmente, após muita parra, suor e saliva, estava encontrada uma solução redundante, inócua, esvaziada de qualquer sentido prático. Mas mesmo redundante, inócua e oca, a proposta mereceu uma abstenção e os votos contrários de dois vogais que, não saciados, fizeram questão de empanturrar a ata com declarações de voto, igualmente redundantes, inócuas e ocas, tão redondas como os preopinantes.
Assim pensava e agia a esmagadora maioria dos legítimos eleitos por Espinho. Agora é tudo diferente, tudo mudou. A eletricidade que iluminava as ruas de Espinho de há seis anos já não é a mesma que agora as ilumina. A que agora as ilumina já não tem a marca de água do Benjamim, do Faraday, do Edison e do super vereador.  O seu logotipo sugere uma barragem com assinatura de um arquiteto fashion, do regime. E insinua um tom esverdeado.

Estamos a falar de quê? Ah, de eletricidade. Pois concluamos, com uma espécie de estória, já velhinha, por acaso.

O primeiro beijo do Pedrinho foi à pála da eletricidade. Ou melhor, foi por falta dela. Trovoada súbita, salto de susto com o estrondo, e depois, no inesperado escuro de carvão,  as mãos tateando colinas e vales, os lábios unidos, a faísca, o coração a acelerar, a ribombar, cada vez mais acelerado,  a tensão, a fricção, as cabeças juntas,  a eletricidade estática dos cabelos...
Queriam mais? Acendam a luz!

***
texto: Octávio Lima

***

foto: rui maia



2.6.12

filo-café electricidade



30 de Junho de 2012
21:30 (sábado)
Auditório Nascente
Rua 16, número 1200
Espinho

Um Filo-Café é um espaço público de troca submetido a um tema previamente escolhido com entrada gratuita.

Abertas as inscrições gratuitas para participação artística nas áreas: pensamento, poesia, música, audiovisual, escultura, pintura, fotografia, dança, vídeo, teatro, performance, instalação e electricidade. Para inscrição, ou mais informações, envie uma mensagem para geral@acextrapolar.com ou ligue para 919131778. No ato de inscrição indique nome, área e local.

Organização: Associação Cultural Extrapolar, Incomunidade e Nascente – Cooperativa de Acção Cultural.

Inscritos ( em permanente atualização ) :

Carlos Vinagre (poesia/pensamento, Espinho), Ricardo Andrade (audiovisual, Matosinhos) , Carol Carvalho (dança, Matosinhos ), Rui Maia ( fotografia, Espinho), João Queiroz (música, Aguda ), Maria Carvalho (performance, Matosinhos), Virgílio Liquito (poesia, Porto),  Rui Ribeiro (performance, Espinho), Elisabete Pires Monteiro (pintura, Boticas), Alexandre Teixeira Mendes (pensamento, Porto), Jorge Taxa (pensamento/electricidade, Porto), Nuno Ribeiro (música, Sintra), Carlos Silva (fotografia, Porto), João Martins (vídeo, São Félix da Marinha), João Moura (pintura, Serzedo), Ricardo Leite (instalação, São Félix da Marinha), Daniela Cruz  instalação, Carvalhos), Romi Soares (performance, Porto), Fátima Vale (performance, Serapicos), Bruno Miguel Resende (performance, Casa Museu Spabilados), Marília Lopes (poesia, Vila Real), Octávio Lima (pensamento, Espinho), Suzana Guimarens (texto, Gaia), Romã Design (cartaz, Espinho), Ana Cordeiro Reis e Rodrigo Gobbet (música, Lisboa), Pedro Fonseca (fotografia, Espinho)

12.5.12

filo-café: milagres (contributos)

carlos silva

zé eduardo fraga


alexandre o'neil


***
O passeio inexistente final
    


texto e voz: carlos vinagre
fotografia e conce(p)ção: ricardo andrade:
tratamento áudio: joão losa


***


do silêncio das flâmulas



abro os braços para as cinzentas alamedas do cárcere
e como  escrava vou medindo o vacilante silêncio das flâmulas

dentro do ventre da voz contida sento-me  enquanto descanso
com o mono mais barato da família sagrada entre os pés

à passagem da lâmina pela superfície do abandono
escorrem fios do meu  sangue sobre as costas do dogma

eis a maravilha reposta ao volante dos lábios
circulam-me pelas artérias todos os milagres do universo

fátima vale


***

ÍNDICE ECMENÉSIO

Antes de me afastar demasiado de mim
Apurei-nos, em toda a geistória, este momento
: as pétalas sacrificiais de Santa Teresinha, a água com sal para os pés.
Incensários volatilizam o verso sesquipedal
Em heréticas viagens iconoclastas e cristalinos vómitos de alma&lama.
As fontes? A autobiografia de setenta e dois anjos, nove livros perdidos da Lemuria e da
Atlântida, cem queimados da Alexandria e da Inquisição,
Dez que ainda não se escreveram, doze que jamais saberei.
Heterodoxas paráfrases de amor e medo, parábases hardcorïf
Amalgamadas locuções desensarilhantes, metáforas metabolizantes
Atónitas tautologias ab aeternum, catóptricas sub-atómicas fórmulas de porvir
(de quem vive no meio sem estar em pré-determinada direcção)
Fátima desvendada intra-molecularmente e o diabo uma fada inter-galáctica
Premissas pseudo-parabolóides, diasporizantes, emigrantes de mim
Metamorfoses sonambúlicas, teorias do caos e súbitas cosmogonias
Subtis pitadas da minha própria cinza
- da mão, do abraço, do UM BIG O
; porque já soube a minha idade; porque sinto a dor, mas não a sou
;porque estou e não estou
Serôdias análises combinatórias: AAM MAA AMA MMA…
Uploads via oral, turbinas de deslembranças, ternas voragens.

E a haver culpa deste apetite, é da policromia dos meus irmãos de [ser]
Das tascas e dos restaurantes fusion gourmet onde me levam
- juntos somos “a escada em espiral que se afunda e se eleva”
A confluência de [três rios], incertos mundos paralelos
A faculdade de descrever o oximoro, todas as Faculdades
Nascentes de promessas que curam e que matam.
Nós e o Silêncio
Inervados no circuito micromacrocósmico, incubadoras de nada e tudo
Transportamos a babel heptagonal na metodologia do Infinito.
Os pés que continuem imersos. Talvez estejamos na iminência de algo:

Suzana Guimaraens

*** 

a doença

o meu corpo parece um cão deitado.
às vezes penso que outro cão se aproxima de mim,
para me cheirar ou lamber,
mas nunca acontece.
às vezes são os homens que se aproximam.
são cinco e estão nus,
mas mal sentem o cheiro viram costas,
na pele, como se gravado a ferro em brasas,
um tem escrito o,
outro tem escrito meu,
outro tem escrito corpo,
outro tem escrito no,
outro tem escrito teu.
os cinco homens juntos formam
o meu corpo no teu.
mas de costas são apenas homens
sem qualquer serventia.
nem sequer me lambem como um cão vadio.
às vezes penso nas mulheres destes homens:
estão em casa, muito gordas, de avental,
com o jantar à espera.
penso no corpo delas, deformado,
a barriga acumulando-se sobre as coxas,
cheia de mamas.
os homens chegam a casa, sentam-se a comer,
passam da mesa para o corpo,
sentam-se a comer.
imagino o que as mulheres lhe dizem:
aqui tens o teu jantar,
ao mesmo tempo que colocam
o prato
e o corpo
sobre a mesa

alice macedo campos

*
rui maia